sábado, 28 de junho de 2008

terça-feira, 27 de maio de 2008

VICTOR


Meu amigo Victor - acho q nunca disse que passei (a) mar mais a vida quando conheci você. Temos cinco anos de odisséia e sempre foi uma vida a percorrer nossos nascimentos. Uma vida, graças a sua coragem de me buscar e nunca me deixar sozinho com meus problemas.


Quero hoje lembrar de sua generosidade. Quero hoje deitar minha memória nos ombros de Ulisses e encontrar o caminho da reminiscência.


É natural esquecermos o passado, ou quando não, ser displicente pela pressa dos compromissos, pela arrogância das ruas engarrafadas. Talvez pela pressa de trocar a roupa e ir ao trabalho.


O amigo que me defendia ao menor desentendimento. O amigo que me chama de poeta para me dar força. O amigo que nunca me deixou sem ver os melhores concertos do universo. Que me fez descobrir o verdadeiro sentido de jogar futebol. O amigo que me ligava todos os dias e pedia por mim em oração. O amigo que me dava conselhos pra não fazer feio diante do mundo. O amigo que me ensinou como se ama as mulheres.


O amigo que organizou um curso de literatura pra mim. O amigo que eu chamava de Orfeu e recitava poesia em voz alta. Que me fazia refletir sobre a amizade. Que foi Neruda nas viagens. Que dividia comigo cada passo seu. Que me ensinou que livros podem ser guardados no coração. Que organiza festas de despedidas. O amigo que me apresentou José Ingenieros. O amigo que me presenteou com Montaigne. O amigo que me levava às suas aulas. Que ouvia os meus conselhos. Que fechava os olhos nos concertos. O amigo que nunca demorou em chorar na minha frente. Que me consolava ao perder amores. O amigo que era bonito na foto e fora da foto. Que não fazia reservas para fazer amizades. O amigo que me levava pra beira do rio e lia o texto mais bonito. Que é alegre como uma casa de praia. O amigo que se preocupava com aminha aparência. Que escrevia epopéias numa dedicatória. O amigo que passou em primeiro lugar na prova de intercambio do instituto Goethe. Que é bolsista do mestrado da PUC. O amigo que é mais poesia que a poesia que escrevo. O amigo que mora na rua da minha memória esquina da soledad. O amigo que aumenta suas historias com sua vontade de amar...


O amigo que flana nas ruas do mundo.


Que não importa onde esteja estará sempre ao meu lado.


Eu nunca esquecerei sua amizade para lembrá-lo que nasci – alem do ventre materno – de sua alegria de viver




sexta-feira, 9 de maio de 2008

Regras para André (em peixe-boi)


1. Procurar orquídeas no mato.

2. Rachar lenha.

3. Ascender a lareira e ficar olhando o fogo.

4. 1 garrafa de vinho aos sábados.

5. Olhar as mulheres.

6. Acariciar o próprio corpo.

7. Fumar charutos e não cigarros

8. Comer fruta pão.

9. Passar a língua nos lábios

10. Um dia de silencio

11. Usar calça de veludo

12. Cachecol.

13. Ler poesia para passarinhos.

14. Abraçar árvores

15. Escrever os sonhos

16. Ouvir Bach

17. Andar a cavalo

18. Deitar na relva

19. Espalhar frutas pela casa.

20. O melhor sabonete no banheiro.

21. Observar os cabelos das pessoas.

22. Dançar na frente do espelho

23. Caminhar de uma a outra cidade

24. Andar descalço

25. Usar chapéu aos domingos

26. cozinhar

27. Poesia em voz alta.

28. Apaixonar-se por uma dançarina

29. Chorar no banco da praça.

30. Comprar flores do menininho

31. Cuspir nos cadilaques

32. Poesia na areia

33. Jogar flores no rio e fazer um pedido.

34. Dançar tango

35. Ver o dia nascer

36. Apaixonar-se pelo crepúsculo

37. Rasgar alguns livros.

38. Comer sempre a luz de velas.

39. Ser amigo.


sexta-feira, 19 de outubro de 2007

escrito


Perigo é sentir a respiração da casa.
Estar no molde entre – aberto
dos pés na madrugada.
Tocar o cinzeiro da neblina
enquanto a cisterna encontra chaminé...
Dizer eu te amo dormindo.




O encontro

Para ser lido ao som de primavera de Zé Miguel Wisnik


Como numa manhã de julho em que sol nasce devagar e as aves pintam longamente suas danças sobre o céu, como uma música que se ouve ao longe e que traça o ritmo das ondas. Mesmo um livro que se lê na secreta intenção mística de se saber como será o restante do dia. Como numa manhã de primavera, eu deslizo na estrada que me conduz ao aeroporto.


Aqui, neste veiculo em movimento enumero as recordações não vividas e o pouco do muito que poderia ser. Por vezes, entre o asfalto e a neblina, estes pensamentos me vêem como um arrebatamento sem dor. Nesta mesma rua se corporifica o meu desejo de neste instante ser nada, baixar os faróis em estrada florescida, na companhia de Ana, enquanto o dia surge implacável; poder enxergar pelas mãos...


Poderia ser mais um dia não fosse o amor, Eros e suas flores, poderia ser objetivo e fraco não fosse essa vertigem quando se precipita a chegada. Poderia mesmo ser tênue. No entanto, os galpões se erguem e pousam no céu sua imponência, a mesma que me distrai na ante-sala do encontro com Ana.


Ao sair da maquina quem me saúda é o barulho interminável de jatos cortando a neblina, uma música azeda, pessoas acenando para o céu. De longe é possível ver os rastros dos que passam dos que chegam... Feliz de mim, pois não vim me despedir de ninguém. Sob passos frios e olhar longe, pretendo ser quase invisível neste instante, pois a atmosfera de tédio, e o horror da espera se precipitam nos passos abafados, no olhar sonâmbulo, nas filas...


Vozes pelos corredores se naufragam e perdem-se no ar. Mais adiante, as maquinas não admitem risos.


E, então, Ana dissera aquela frase, sem nenhuma expectativa, assim de repente. Ana dissera aquela frase, a nossa frase, secreta frase... E eu ali perdido, e eu ali sem saber. Avistou-me desde o primeiro momento, gostava de me observar. Como uma música silenciosa, sua voz, que reconhecera imediatamente, me leva em seu bolso.


“Você me aproxima de mim”, confesso ao abraçá-la. E de novo, entre risos, aquela frase me transpassa o peito: a voz de Ana, como uma lança. A sorte que o amor é invisível.


“Eu já disse hoje que te adoro”, ela repete nossa frase como um prêmio, uma recompensa, um segredo...


Depois me explica longamente porque não me abordou imediatamente, porque me deixou naquela selva escura, alimentando um rio de saudades presente numa foto três por quatro e confessa ansiar por me beijar com os olhos, decorar os passos, os traços, a expressão, sem servir para nada, apenas para regar seu amor... Porque o primeiro beijo sempre se da com os olhos.


Então ligo o automóvel e deslizo pela estrada...


Agora tudo é caminho de volta. É chegada a hora de ser, depois de ter. É quando Ana refaz os passos da viagem: o céu cinzento, aquele jardim, os passeios crepusculares, o horizonte que se espelha na água, os bancos da praça e as suas fotografias espalhadas pela minha vida, as mesmas que agora ela recorda em voz alta. A mesma que me faz cantar longamente: “eu já disse hoje...”. A mesma que sopro em dias como este, em dias de primavera.



sexta-feira, 21 de setembro de 2007

eu não aceito

foto de Mischa Gordin

“Por polidez perdi minha vida...”.
Rimbaud

É sempre difícil aceitar algo. Qualquer coisa que seja, por menor, por mais misteriosa, por mais aceitável que possa aparecer.

A satisfação é o aperto que se consome a solidão que se ameaça.

É certo que o coração e a alma humana têm razões suficientes e inalcançáveis, cujo entendimento aos deuses pertence.

Não procuro aceitar, render as armas roubadas, reconhecer o cheiro da despedida.

O mar se encarrega por apagar o que foi escrito na areia. Mesmo as pegadas.

A não aceitação da vida requer o don de estar alem do homem. É acreditar que o ser humano pode ser mais.

Reconheço imediatamente a voz das pessoas que amo, o ritmo imediato do suspiro é como o suave ritmo das cartas sendo embaralhadas A festa do olhar ao reconhecer o sentir da visão Olhar também é amar, beijar...

Reconhecer é não aceitar, é acreditar que a vida pode ser melhor.

De manhã quando o azul me descortina para o dia, sinto a suave doce música que se expande no universo ao meu redor.

As folhas que caem no quintal e o vento que não as deixa caírem, totalmente.

Reconheço o esplendor desta manhã, sua música silenciosa; Acontece que sempre arranjo um jeito de renegar a despedida, de não aceitar sua partida.

O Filho nunca quer separar-se dos pais...

Às vezes grito, esperneio, corro e seguro as pernas do dia, tropeço na rua e fecho os olhos

A dor rapidamente se expande, desconhece escândalos, recusa principiantes.

Contudo, se ela aparece eu não a abandono, eu não a aceito. Quero educá-la

Conversar, convidar pra jantar fora, se não ela rói as outras lembranças, aperta os nós dos pés fincados ao chão.

Mas, existem dores que se recusam, agressivas, que nos mostram o quanto a poesia pode ser fútil e desnecessária. Há dores que nos mostra o quanto somos inexplicavelmente insignificantes.

Foram poucos os momentos em minha vida que renunciei a tudo que havia vivido. Foram poucos os momentos em minha vida em que me divorciei da fala. Talvez quando meu cachorro, Alff, morreu sem despedida. Quando o aniversario passou batido

É como estar debaixo d`água sendo levado pela correnteza. Quis entregar as cartas, finalizar o jejum, a dor se encarrega de falar, ela fala por si.

Como na traição.

Uma dor que renuncia a fala. Onde tudo que foi levado a serio torná-se amargo, onde as palavras que foram sacramentadas convertem-se em palavrões, onde a única coisa que realmente se quer é nunca ter vivido o que se viveu.

Tenta-se em vão cicatrizar as feridas. A dor desconhece elixir, essências...

Traição não é assunto de Deus. É assunto privado da carne.

Não existe permissão para os ouvidos, para a alma se enlevar novamente com as músicas, poemas, cartas...

A traição deveria ser alfabetizada, permitir rascunhos, ordenar despedidas. No entanto, é violenta e não admite ser menos importante que o amor.

Ser traído, porem, é não perder, ainda, a esperança do amor. É saber-se fiel a si.

Ser fiel a si é desejar ler de manhã e viver o que se lê à tarde. E aceitar que existimos pela poesia. É saber que a existência pode ser mar no ocaso, que o ser humano pode ser alem, muito alem, de ser humano.

Não aceito, estou certo que não aceito: traição, deslealdade... Não aceito a própria vida. Por isso escrevo, trabalho, pinto, faço musica, choro, fico triste. Não aceitar pode ser a única forma de recuperar a vida. Criar é não aceitar.

Quando desato os nós que me prendem no chão, quando esqueço o caminho, é quando de repente estou casado novamente com a fala, com a vida.

Hoje, vendo o dia nascer, percebendo sua clarividência, os raios iluminando o rio, ansiei eternizar este momento. A poesia novamente me salvou, os versos escorreram em minhas mãos, as facas do poema moldaram o dia. Eu e a manhã casados novamente.

As leis da vida são outras. Aproximo-me da verdade por meio do amor. Desato os nós que embrutecem os pés e posso voar, como nos labirintos sagrados do amor, como nos diz Paul Celan: “Eu sou o Maximo de mim quando sou você...”.


Elogio da distancia (Paul Celan)


Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou o Maximo de mim.

Na fonte dos teus olhos
ando a deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula acorda



quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Um Canto



Uma escola abandonada...

as flores
desabrocham
sem beijos

A chuva que alaga a memoria...

as flores
levedam
os caminhos

Trago o ouro e o mel...

as flores
engolem
o firmamento

Memória (Drumonnd)

Amar o perdido
deixa confundido
este coração

nada pode o olvido
contra o sem sentido
o apelo do não

até as coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

mas as coisas findas
muito mais que lindas
estas ficarão...